Impedido, por razões profissionais, de ir ao Frasqueirão ver a segunda apresentação do Mais Querido no Campeonato Estadual de 2008, tive que acompanhar o jogo do ABC X Santa Cruz pela TV União, um sofrimento para qualquer Frasquerino. Enquanto o jogo não começava, lembrei da minha ida à Currais Novos para a partida Potyguar X ABC e de tudo que senti e pensei na ocasião.O Mais Querido entrou no gramado para sua estréia no Campeonato Estadual. Nas mãos dos jogadores uma faixa com os dizeres “A SAUDADE E O CARINHO DO ABC AO PEQUENO ALVINEGRO FERNANDO NETO”. Vendo a homenagem dos atletas e de todo o ABC ao pequeno Fernando Lemos da Costa Neto, de apenas 4 anos, que nos deixou na última sexta-feira, vítima de afogamento na praia de Muriú, pensei muitas coisas e acabei esquecendo da partida.
Ali em pé nas modestas arquibancadas do Bezerrão em Currais Novos, fiquei olhando a faixa carregada pelos atletas e pensei na dor da família, na dor de Érick Escóssia, pai de Fernandinho e alvinegro dos mais apaixonados e fiéis. Ao meu lado minha futura esposa que estreava na torcida do ABC e visitava pela primeira vez o Bezerrão e a cidade de Currais Novos, direcionei o meu olhar para ela e pensei no filho que planejamos ter e pela primeira vez me senti pai, pela primeira vez pensei na dor da perda de um filho. Ela sorriu melancolicamente para mim como se percebesse o que eu estava pensando.
Olhei rapidamente para o gramado e percebi que o jogo já havia começado. Notei que o gramado encontrava-se em péssimas condições. Voltei a pensar no meu futuro filho, na festa de nascimento, nos presentes alvinegros dados pelos amigos torcedores do Mais Querido, nas roupinhas com a marca do ABC, nos primeiros dentinhos, nas primeiras palavras pronunciadas, na primeira vez dele dizendo BC, BC. Pensei no primeiro aniversário, na bola de espuma no berço antes dele aprender a andar, nos primeiros passos e nos primeiros chutes em uma bola. Pensei nele sorrindo e dizendo “papai”. Pensei na dor da sua ausência, na perda de um filho que ainda não tive e que a minha tristeza não significava nada diante da dor da perda real de um filho.
Alan foi expulso e o ABC ficou com 10 em campo. Logo sofremos um gol e fiquei ainda mais triste. Achei que aquela noite seria de lágrimas, mas o garoto Rodriguinho empatou o jogo em uma bela cobrança de falta. Pensei que a camisa 11 do Mais Querido estava mais uma vez muito bem representada e que Rodriguinho foi forjado do mesmo aço de caráter, humildade, profissionalismo e habilidade que forjou nosso eterno garoto Wallyson.
No intervalo do jogo, segurando a mão de minha namorada com uma bela bandeira do ABC sobre as pernas, fiquei olhando a Frasqueira, a paixão de uma torcida sem limites que rodou mais de 172 km para chegar em Currais Novos, que fez o Bezerrão virar Frasqueirão, que fazia tanta festa junto com a Banda do Elefante que me sentir no Módulo 2 do Maria Lamas Farache.
No segundo tempo o ABC voltou melhor. Rodriguinho valia por dois, Audálio, Bosco, Marcelinho e Waldir Papel fizeram uma boa estréia com a armadura alvinegra inoxidável. Nem parecia que era o ABC que estava com um jogador a menos em campo.
Agora pela TV vejo o ABC entrar em campo no Frasqueirão para enfrentar o Santa Cruz e mesmo longe penso na ausência do pequeno Fernandinho que adorava entrar em campo com a equipe do ABC e se sentia em casa no gramado do Frasqueirão.
Claro que pela TV a emoção não é a mesma, mas é muito bom ver um canal de TV acreditando e investindo no nosso tão sofrido futebol potiguar. Foi lindo ver mais uma vez o garoto Rodriguinho marcar mais um gol depois de um belo passe de calcanhar de Waldir Papel.
Foi bom ver a Frasqueira e os gols de Bosco, Fábio Costa e especialmente de Waldir Papel, que vez mais uma boa partida e merecia deixar o seu nas redes.
Foi mesmo uma boa partida para o Mais Querido, mas eu continuava pensando no pequeno Fernando Neto e no que dizer para seu pai Érick Escóssia e sua família...
Mas nada que seja dito pode aliviar a dor de um pai, o sofrimento de uma família em um momento desses. Só nos resta desejar força a todos para superar essa perda e para continuar tocando a vida.
Érick Escóssia, a saudade jamais passará, mas a maior homenagem que podemos prestar aos que partiram é continuar lutando pelos que ficaram, é encontrar forças entre as lágrimas para dizer a si mesmo: “vamos em frente!”.
Minhas mais sinceras condolências a você, Érick Escóssia, e para toda a sua família.


