O dia amanheceu sorrindo, muito sol e calor e a cidade toda em festa. Em todas as partes, em qualquer lugar, era possível encontrar pessoas devidamente preparadas para a batalha das 17h no “Poema de Concreto” de Ponta Negra, todas equipadas com suas belas armaduras alvinegras inoxidáveis. Nas janelas dos apartamentos bandeiras alvinegras e nos carros bandeirinhas em preto e branco. Como estava linda a cidade!
O sol superou a sua luminosidade e o calor de costume, o verde do mar superou a sua beleza rotineira, os passarinhos superaram a perfeição de seus cantos, o céu superou o azul de sempre e as nuvens a leveza diária. As crianças estavam mais felizes e os namorados mais apaixonados. A quarta-feira superou o tédio habitual e se transformou em feriado. A cidade superou a sua alegria e se transformou em carnaval, em um verdadeiro baile preto e branco. Sim! Esse foi um dia de superação e todos podiam enxergar isso, principalmente a nação alvinegra.
A Frasqueira vez uma festa inacreditável, indescritível, celestial. Já nas primeiras horas do dia pintou a cidade de branco e preto como em um grande cartão postal dos antigos carnavais na Ribeira. No Frasqueirão, sua casa, a Frasqueira vez uma festa que com certeza superou a alegria dos carnavais de Salvador.
Quando a equipe do Mais Querido entrou em campo com seu manto sagrado todo branco o Frasqueirão literalmente explodiu e 17 mil vozes gritaram o nome do ABC tão alto que pôde ser ouvido o grito da torcida em toda a Natal, se não diretamente, mas através das ondas do rádio. A superioridade do ABC já era visível até no uniforme; branco, límpido, claro, nobre, majestoso. Um contraste com as acanhadas listras verticais azuis e vermelhos do uniforme do E.C. Bahia, equipe de grande tradição e de grandes conquistas no futebol brasileiro, mas que viver a pior crise de sua história.
Com a bola rolando o ABC superou as ausências do capitão e xerife Ben-Hur e do fantástico garoto Nêgo, símbolos de raça, determinação, superação e habilidade.
O jovem Wallyson, poeta da bola, superou a defesa baiana e marcou dois belos gols e ainda promoveu um show a parte com dribles hipnóticos e desconcertantes dos quais os baianos vão demorar a esquecer. Juninho Petrolina demonstrou todo o seu amor pelo ABC com emprenho e suor, honrando a camisa 10 de Alberi. Jean, contundido, teve que deixa o clássico prematuramente e em lágrimas provou que se os homens não devem chorar, os guerreiros podem chorar a vontade e demonstrar a sua força interior. Ranieri continuou o mesmo paredão e exemplo de coragem de quem já jogou com o dedo fraturado e suturado. Éder foi o gás a mais que o ABC precisava para a vitória.
Ao que pese o maravilhoso trabalho de preparação física do ABC essa foi uma vitória do mais importante músculo do corpo humano, o coração, e do cérebro privilegiado do Professor Ferdinando Teixeira. Foi uma vitória de sangue, suor e lágrimas, mas principalmente da inteligência e da superação.
Ao E.C. Bahia restou um sopro de classe de Charles e Moré, autor do único gol da equipe baiana. Restou o aprendizado de que quem quer conquistar qualquer coisa precisa de determinação e de empenho para superar as dificuldades. Restou o aprendizado de que as glórias do passado não podem, por si só, trazer novas conquistas. E restou, principalmente, ao Bahia o aprendizado que times e torcidas campeãs não calçam chuteiras ou sapatos, mais sandálias da humildade. Agora resta rezar a todos os santos pela classificação quase impossível.
Mas de todas as belas cenas e imagens do clássico que levou o Mais Querido ao octogonal final do Campeonato Brasileiro da Série C - 2007, a que sintetiza melhor a “batalha da superação” foi a do guerreiro menino, Wallyson, deitado de braços abertos sobre o escudo do ABC em uma faixa atrás do gol após abrir o placar para o Time do Povo. Naquele momento de sublime poesia ele parecia abraçar toda a Frasqueira, parecia dizer: “por ti, ABC, vale a pena superar tudo”.


