quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Superação

Quarta-feira, 03 de outubro de 2007, feriado no Rio Grande do Norte, dia de “decisão” na Série C do Campeonato Brasileiro, dia de Frasqueirão, dia de superação.

O dia amanheceu sorrindo, muito sol e calor e a cidade toda em festa. Em todas as partes, em qualquer lugar, era possível encontrar pessoas devidamente preparadas para a batalha das 17h no “Poema de Concreto” de Ponta Negra, todas equipadas com suas belas armaduras alvinegras inoxidáveis. Nas janelas dos apartamentos bandeiras alvinegras e nos carros bandeirinhas em preto e branco. Como estava linda a cidade!

O sol superou a sua luminosidade e o calor de costume, o verde do mar superou a sua beleza rotineira, os passarinhos superaram a perfeição de seus cantos, o céu superou o azul de sempre e as nuvens a leveza diária. As crianças estavam mais felizes e os namorados mais apaixonados. A quarta-feira superou o tédio habitual e se transformou em feriado. A cidade superou a sua alegria e se transformou em carnaval, em um verdadeiro baile preto e branco. Sim! Esse foi um dia de superação e todos podiam enxergar isso, principalmente a nação alvinegra.

A Frasqueira vez uma festa inacreditável, indescritível, celestial. Já nas primeiras horas do dia pintou a cidade de branco e preto como em um grande cartão postal dos antigos carnavais na Ribeira. No Frasqueirão, sua casa, a Frasqueira vez uma festa que com certeza superou a alegria dos carnavais de Salvador.

Quando a equipe do Mais Querido entrou em campo com seu manto sagrado todo branco o Frasqueirão literalmente explodiu e 17 mil vozes gritaram o nome do ABC tão alto que pôde ser ouvido o grito da torcida em toda a Natal, se não diretamente, mas através das ondas do rádio. A superioridade do ABC já era visível até no uniforme; branco, límpido, claro, nobre, majestoso. Um contraste com as acanhadas listras verticais azuis e vermelhos do uniforme do E.C. Bahia, equipe de grande tradição e de grandes conquistas no futebol brasileiro, mas que viver a pior crise de sua história.

Com a bola rolando o ABC superou as ausências do capitão e xerife Ben-Hur e do fantástico garoto Nêgo, símbolos de raça, determinação, superação e habilidade.

O jovem Wallyson, poeta da bola, superou a defesa baiana e marcou dois belos gols e ainda promoveu um show a parte com dribles hipnóticos e desconcertantes dos quais os baianos vão demorar a esquecer. Juninho Petrolina demonstrou todo o seu amor pelo ABC com emprenho e suor, honrando a camisa 10 de Alberi. Jean, contundido, teve que deixa o clássico prematuramente e em lágrimas provou que se os homens não devem chorar, os guerreiros podem chorar a vontade e demonstrar a sua força interior. Ranieri continuou o mesmo paredão e exemplo de coragem de quem já jogou com o dedo fraturado e suturado. Éder foi o gás a mais que o ABC precisava para a vitória.



Ao que pese o maravilhoso trabalho de preparação física do ABC essa foi uma vitória do mais importante músculo do corpo humano, o coração, e do cérebro privilegiado do Professor Ferdinando Teixeira. Foi uma vitória de sangue, suor e lágrimas, mas principalmente da inteligência e da superação.

Ao E.C. Bahia restou um sopro de classe de Charles e Moré, autor do único gol da equipe baiana. Restou o aprendizado de que quem quer conquistar qualquer coisa precisa de determinação e de empenho para superar as dificuldades. Restou o aprendizado de que as glórias do passado não podem, por si só, trazer novas conquistas. E restou, principalmente, ao Bahia o aprendizado que times e torcidas campeãs não calçam chuteiras ou sapatos, mais sandálias da humildade. Agora resta rezar a todos os santos pela classificação quase impossível.

Mas de todas as belas cenas e imagens do clássico que levou o Mais Querido ao octogonal final do Campeonato Brasileiro da Série C - 2007, a que sintetiza melhor a “batalha da superação” foi a do guerreiro menino, Wallyson, deitado de braços abertos sobre o escudo do ABC em uma faixa atrás do gol após abrir o placar para o Time do Povo. Naquele momento de sublime poesia ele parecia abraçar toda a Frasqueira, parecia dizer: “por ti, ABC, vale a pena superar tudo”.

ABTê... ABTê... Viva o ABTê!

Publicado originalmente no Portal Vermelho com o enunciado a seguir:

A coluna Poetas Potiguares, amante da poesia - e claro do futebol que é poesia física e corporal - homenageia o ABC Futebol Clube, o Mais Querido time de futebol potiguar pela passagem de seus 90 anos de glórias e vitórias que colocaram um pouco mais de alegria na tão sofrida vida da massa alvinegra, conhecida por frasqueira e da qual nos orgulhamos de fazer parte.


Muitos se consideram o torcedor número 1 do ABC F.C. e talvez todos sejam mesmo, por algum momento, o mais apaixonado dos torcedores. Quantas e quantas vezes já me senti assim!?. Parece não haver limites para essa paixão (prefiro usar a palavra paixão e não amor, afinal o amor nada mais é que uma paixão cansada).

Uma história que ouvia de meu pai, Seu Daniel Morais ou Dada, sempre me encantou, não apenas pela história em si, mas principalmente pela naturalidade em que me contava detalhadamente essa história como se as ações de nosso personagem fossem corriqueiras e apenas o comportamento de um abcdista, como milhares de outros.

Seu Dada me contou varias vezes a história de Dedezinho: um cidadão comum, casado, com filhos, sogra e cachorro (um bom e respeitoso vira-lata branco com manchas pretas).

Dedezinho se dirigia a pé para os jogos do ABC, porque não tinha dinheiro para paga a passagem de Ceará-Mirim, onde morava, para Natal, onde se localiza o Juvenal Lamartine, carinhosamente conhecido como JL e o Castelão (nosso hoje João Machado – Machadão) principais palcos dos jogos do Mais Querido, é dessa forma que nós torcedores gostamos de chamar o ABC.

Assim, nos domingos de jogos, ainda quando os primeiros raios de sol surgiam, Dedezinho realizava o mesmo ritual de sempre: após acordar, preparava apenas um cuscuz com café e leite (será que o café - preto - com leite - branco - era mais uma homenagem ao alvinegro Potiguar?), verificava as pilhas do radinho portátil (que claro de dinho não tinha nada era um Motoradio enorme com seis pilhas grandes ou de preferência um gigantesco radio da marca ABC) e vestia sempre a mesmo e já muito surrada camisa branca com lindas listras verticais pretas, vestia aquela camisa com vários furos provocados pelo tempo com um orgulho só comparável ao de um imortal, que se prepara para assumir, pela primeira vez, uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Então alimentado pela mistura preto e branca seguia a pé até o local do espetáculo. Ao chegar, uns 40 km depois de sua partida, sempre muito feliz e do lado de fora do estádio acompanhava o jogo com seu "radinho" no ouvido e as vezes vendo por uma pequena abertura qualquer na estrutura ou nas portas do estádio uma parte do corpo dos jogadores e com sorte as chuteiras de um adcdista tocar a bola com classe e habilidade. Paciente Dedezinho acompanhava todo o jogo até o último minuto, estivesse o ABC vencendo ou não e terminado o jogo esperava a saída dos jogadores para ver seus heróis de perto, mas ele era tímido demais para se aproximar e mesmo para acenar para os jogadores. Ele não precisava de muita atenção, bastava-lhe a imagem de seus campeões guardada na retina e comumente semelhante a imagem que construía ouvindo a descrições das jogadas e das características físicas dos jogadores pelo radio.

De volta a Ceará-Mirim, Dedezinho cansado da batalha com seu manto sagrado sobre o ombro se dirigia direto para casa para tranqüilizar sua esposa, afinal já era tarde da noite e ela sabia que toda a jornada de Dedezinho era solitária e que grande parte do caminho era feita na escuridão noturna, em caminhos de terra dentro do mato. Sobre a mesa o jantar logo surgia, comidinha simples, mas feita com muito amor, um nobre banquete para nosso guerreiro.

Mas a batalha ainda não havia terminado para Dedezinho, ele tinha uma última e difícil missão: após o jantar ele iria para a praça do bairro e lá ficaria dando círculos em volta da praça até o sol raiar, gritando repetitivamente ABTê, ABTê....VIVA O ABTê! Dedezinho em sua simplicidade não tinha boa dicção e confundia os sons de "C" com os de "T". No dia seguinte com apenas duas ou três horas de sono seguiria normalmente para seu trabalho na roça.

Mas nem sempre a vida era assim tão dura com nosso herói, nos sábados véspera de domingos de clássico ou de finais, sua esposa, Maria, vendia - talvez a contra gosto - uma ou mais galinhas caipiras para que Dedezinho pudesse comprar um ingresso da geral para tentar ver o seu time, que não era apenas do coração, mas da alma e do corpo inteiro. Pena que na geral também não dava para ver muita coisa, a visão do campo era péssima, especialmente com as placas de propaganda colocadas nas laterais do gramado que tomavam toda a visão, Dedezinho nem ligava, estava sempre feliz.

Essa história sempre me comoveu, nela podemos ver o quanto é desigual e injusto o nosso amado Brasil e o quanto é importante para os brasileiros o futebol e principalmente que não são raros os que gostam mais do ABC do que mesmo de futebol.

Nunca conheci Dedezinho, mas tenho por ele uma enorme admiração e um pouco de inveja também, por ele ser um amante incondicional do ABC incapaz de ver as falhas de seu time, que para ele sempre jogou melhor e se não venceu algum partida foi porque faltou sorte ou o juiz era um grande ladrão.

Muitas vezes me pego imaginando porque Dedezinho fazia aquilo tudo, porque as voltas na praça, seria algum tipo de promessa? Imagino como era a cena de um "negão" com mais de 1,80m de altura, chamado por todos de Dedezinho, com um bigode grosso e mal feito, com poucos dentes na boca, um garrafa de cachaça na mão, vestido com uma camisa alvinegra, dando voltas em uma praça, gritando alegremente ABTê... ABTê... VIVA O ABTêêêêêêê...

2007: A VOLTA POR CIMA!

Oh, ano duro... Oh, ano ruim... Oh, ano miserável... Oh, ano desgraçado... Oh, ano sem futuro... Oh, ano infeliz esse 2006 para o nosso ABC!

Vai embora logo 2006 filho da égua!

Não fosse pela inauguração do Maria Lamas Farache, nosso tão sonhado Frasqueirão e pela goleada que o Mais Querido sapecou no arqui-rival, América, no primeiro clássico do ano, 2006 poderia ser totalmente esquecido.

Foi linda a inauguração do Frasqueirão, o estádio não estava totalmente lotado pela torcida, mas a emoção dos presentes inundava a todos. Eu olhava para cima para ver uma ave alvinegra que voava feliz sobre nossas cabeças, ao meu lado pai e filho se abraçavam e gritavam “BC BC” enquanto as lágrimas caiam sobre suas fases e me sentir como eles, como alguém que conquista a casa própria.

E o jogo contra o Flamengo, que festa fabulosa! As duas maiores torcidas do estado em um jogo onde o maior espetáculo foi promovido pela torcida e pelo estádio Frasqueirão, que aparecia pela primeira vez para todo o Brasil. Naquela noite o Frasqueirão passou por sua prova de fogo ou devo dizer de água, aja visto que uma chuva torrencial caiu sobre Natal e durante toda a partida nenhuma poça d’agua se formou no gramado. Isso que é drenagem! Mas tarde já em casa, ainda com o cabelo molhado pela chuva, assistir o vídeo-tape do jogo e imaginei a cara de inveja dos outros quando ouviram o comentarista da TV elogiar o nosso Frasqueirão em rede nacional.

Mas o olho gordo e a inveja dos adversários acabou por colocar mau olhado no nosso time, que não rendeu bem, inclusive dentro de casa. Não chegamos as finais do campeonato estadual, não conquistamos vaga para o Campeonato Brasileiro da Série C, o que nos deixou o segundo semestre inteiro de 2006 sem jogar e ainda perdemos a Copa RN com uma derrota dentro do Frasqueirão para o América (Uh! Isso doe, isso machuca!).

Como se isso tudo não bastasse, ainda tivermos que assistir a ascensão do América à primeira divisão do campeonato brasileiro.

Sim, 2006 é um ano para ser esquecido, uma página para ser virada, uma tragédia em nossa história de vitórias, mas também é um ano que a torcida provou que ama o ABC, independente de títulos e vitórias.

Ser torcedor na vitória é fácil, quero ver se algum clube de futebol brasileiro contaria com a união e o apoio de sua torcida caso ficasse fora do campeonato brasileiro? O ABC provou que sim, que apesar da dor e da tristeza a torcida estará sempre ao seu lado, porque o ABC é paixão não é moda. Apesar de tudo a Frasqueira se manteve fiel, se manteve ao lado do Mais Querido, não houver pichações ao patrimônio do ABC, nenhum dirigente ou atleta do clube foi agredido, não houve invasões ao gramado, a Frasqueira manteve a calma e o amor ao clube.

Houve sim muita cobrança e também apoio. E sabe porque o ABC conta com tanto apoio? Porque é um time verdadeiramente fora de série, porque apesar de tudo, cada torcedor do ABC pode bater no peito e dizer “não troco uma lasca do ABC, por um caçoar cheio de qualquer time campeão do mundo”. Porque não são as vitórias, os títulos ou a divisão da qual o ABC faz parte que importa, o que importa é que o ABC foi, é e sempre será o ABC. O que importa é que o ABC é para a Frasqueira o melhor clube do mundo.

2006 já vai acabar e em 2007 poderemos voltar a chorar pelo Mais Querido, só que dessa vez vamos chorar mais de alegria do que de tristeza. Poderemos voltar a ver a Garra Alvinegra fazendo sua festa com alegria e muita paz nas arquibancadas, poderemos vestir novamente nossa armadura alvinegra inoxidável com listras verticais, poderemos gritar “BC BC”, poderemos cantar nosso hino e certamente vamos gritar varias vezes É CAMPEÃO... É CAMPEÃO...

Feliz 2007 a toda a nação alvinegra, feliz 2007 a todos os dirigentes, atletas e comissão técnica e a todos os funcionários do ABC.

Vem logo 2007, que não vejo a hora de pintar no Frasqueirão as seguintes frases: “CAMPEÃO ESTADUAL - 2007” e “CAMPEÃO BRASILEIRO DA SÉRIE C - 2007”.