Publicado originalmente no Portal Vermelho com o enunciado a seguir:
A coluna Poetas Potiguares, amante da poesia - e claro do futebol que é poesia física e corporal - homenageia o ABC Futebol Clube, o Mais Querido time de futebol potiguar pela passagem de seus 90 anos de glórias e vitórias que colocaram um pouco mais de alegria na tão sofrida vida da massa alvinegra, conhecida por frasqueira e da qual nos orgulhamos de fazer parte.
Muitos se consideram o torcedor número 1 do ABC F.C. e talvez todos sejam mesmo, por algum momento, o mais apaixonado dos torcedores. Quantas e quantas vezes já me senti assim!?. Parece não haver limites para essa paixão (prefiro usar a palavra paixão e não amor, afinal o amor nada mais é que uma paixão cansada).
Uma história que ouvia de meu pai, Seu Daniel Morais ou Dada, sempre me encantou, não apenas pela história em si, mas principalmente pela naturalidade em que me contava detalhadamente essa história como se as ações de nosso personagem fossem corriqueiras e apenas o comportamento de um abcdista, como milhares de outros.
Seu Dada me contou varias vezes a história de Dedezinho: um cidadão comum, casado, com filhos, sogra e cachorro (um bom e respeitoso vira-lata branco com manchas pretas).
Dedezinho se dirigia a pé para os jogos do ABC, porque não tinha dinheiro para paga a passagem de Ceará-Mirim, onde morava, para Natal, onde se localiza o Juvenal Lamartine, carinhosamente conhecido como JL e o Castelão (nosso hoje João Machado – Machadão) principais palcos dos jogos do Mais Querido, é dessa forma que nós torcedores gostamos de chamar o ABC.
Assim, nos domingos de jogos, ainda quando os primeiros raios de sol surgiam, Dedezinho realizava o mesmo ritual de sempre: após acordar, preparava apenas um cuscuz com café e leite (será que o café - preto - com leite - branco - era mais uma homenagem ao alvinegro Potiguar?), verificava as pilhas do radinho portátil (que claro de dinho não tinha nada era um Motoradio enorme com seis pilhas grandes ou de preferência um gigantesco radio da marca ABC) e vestia sempre a mesmo e já muito surrada camisa branca com lindas listras verticais pretas, vestia aquela camisa com vários furos provocados pelo tempo com um orgulho só comparável ao de um imortal, que se prepara para assumir, pela primeira vez, uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Então alimentado pela mistura preto e branca seguia a pé até o local do espetáculo. Ao chegar, uns 40 km depois de sua partida, sempre muito feliz e do lado de fora do estádio acompanhava o jogo com seu "radinho" no ouvido e as vezes vendo por uma pequena abertura qualquer na estrutura ou nas portas do estádio uma parte do corpo dos jogadores e com sorte as chuteiras de um adcdista tocar a bola com classe e habilidade. Paciente Dedezinho acompanhava todo o jogo até o último minuto, estivesse o ABC vencendo ou não e terminado o jogo esperava a saída dos jogadores para ver seus heróis de perto, mas ele era tímido demais para se aproximar e mesmo para acenar para os jogadores. Ele não precisava de muita atenção, bastava-lhe a imagem de seus campeões guardada na retina e comumente semelhante a imagem que construía ouvindo a descrições das jogadas e das características físicas dos jogadores pelo radio.
De volta a Ceará-Mirim, Dedezinho cansado da batalha com seu manto sagrado sobre o ombro se dirigia direto para casa para tranqüilizar sua esposa, afinal já era tarde da noite e ela sabia que toda a jornada de Dedezinho era solitária e que grande parte do caminho era feita na escuridão noturna, em caminhos de terra dentro do mato. Sobre a mesa o jantar logo surgia, comidinha simples, mas feita com muito amor, um nobre banquete para nosso guerreiro.
Mas a batalha ainda não havia terminado para Dedezinho, ele tinha uma última e difícil missão: após o jantar ele iria para a praça do bairro e lá ficaria dando círculos em volta da praça até o sol raiar, gritando repetitivamente ABTê, ABTê....VIVA O ABTê! Dedezinho em sua simplicidade não tinha boa dicção e confundia os sons de "C" com os de "T". No dia seguinte com apenas duas ou três horas de sono seguiria normalmente para seu trabalho na roça.
Mas nem sempre a vida era assim tão dura com nosso herói, nos sábados véspera de domingos de clássico ou de finais, sua esposa, Maria, vendia - talvez a contra gosto - uma ou mais galinhas caipiras para que Dedezinho pudesse comprar um ingresso da geral para tentar ver o seu time, que não era apenas do coração, mas da alma e do corpo inteiro. Pena que na geral também não dava para ver muita coisa, a visão do campo era péssima, especialmente com as placas de propaganda colocadas nas laterais do gramado que tomavam toda a visão, Dedezinho nem ligava, estava sempre feliz.
Essa história sempre me comoveu, nela podemos ver o quanto é desigual e injusto o nosso amado Brasil e o quanto é importante para os brasileiros o futebol e principalmente que não são raros os que gostam mais do ABC do que mesmo de futebol.
Nunca conheci Dedezinho, mas tenho por ele uma enorme admiração e um pouco de inveja também, por ele ser um amante incondicional do ABC incapaz de ver as falhas de seu time, que para ele sempre jogou melhor e se não venceu algum partida foi porque faltou sorte ou o juiz era um grande ladrão.



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