sábado, 10 de maio de 2008

50 - Um dilúvio de alegria





"Aquele que obtém uma vitória sobre outros é forte, mas aquele que obtém uma vitória sobre si próprio é todo-poderoso."

(Lao-Tsé)





Já passava das duas da madrugada do sábado para o domingo quando recebi um telefonema de um amigo abcdista.

Alô. Respondi.

Alô, Ionaldo, tudo bem com você? Só tô ligando a essa hora porque sei que você não dorme em véspera de decisão. Falou eufórico, acho que ele havia bebido um pouco.

Tudo bem estava mesmo acordado. Respondi gentilmente.

Amanhã vai ser 5 X 0. Gritou ele.

Vamos com calma o Potiguar é uma grande equipe e a tradição do ABC é de conquistas com muita dificuldade e luta.

Que nada. Gritou ele mais uma vez.

Lembre de calçar as sandálias da humildade amanhã. Alertei a ele.

Trocamos mais algumas palavras e desligamos os telefones. Após essa conversa fiquei ainda mais pensativo, me levantei da cama e fui para a janela, fiquei observando a chuva que caía e pensando que eu poderia está errado, o ABC poderia ganhar o jogo facilmente, afinal o jogo era no Frasqueirão.

Conseguir dormir algumas horas.

Ao acordar a chuva caía forte e continuaria forte durante todo o dia, mas não me preocupei com o andamento da partida, sabia que a drenagem do gramado do Frasqueirão já havia sido testada e aprovada.

Devidamente uniformizado e com minha bandeira alvinegra seguir, ainda no início da tarde e debaixo de uma forte chuva, para o Colosso de Ponta Negra. Lá chegando fiquei, mais uma vez, orgulhoso da Frasqueira que enfrentou um verdadeiro dilúvio para lotar o Frasqueirão e inundar cada canto das arquibancadas do Poema de Concreto com muita alegria. Ninguém queria perder a festa do qüinquagésimo título estadual do ABC FC.

Infelizmente o mais lindo bandeirão do futebol brasileiro não poderia fazer parte da festa, a chuva não permitia, mas em seu lugar vimos um belo desfile de guarda-chuvas e sobrinhas de todas as cores e gostos; diversos e variados como a torcida do ABC.

Na entrada da equipe do ABC não teve fogos de artifício ou bobinas de papel como acontece tradicionalmente, mas a festa da torcida foi a mesma. O calor que vinha das arquibancadas e cadeiras especiais aquecia a todos e especialmente aos atletas que estavam prestes a entrar para história do futebol brasileiro como a primeira equipe a alcançar a marca de cinqüenta títulos estaduais.

Diante da vibração da equipe e da presença maciça da Frasqueira pensei que meu amigo poderia está certo, o ABC poderia ter finalmente um título conquistado em uma final sem muito sofrimento e aí o Bosco, em uma jogada que me lembrou o nosso querido lateral Nego, abriu o placar, ainda aos 7 minutos do primeiro tempo, com um chute em diagonal da entrada da grande área. Tive certeza: “vai ser fácil!”.

Com a vantagem de jogar pelo empate e com um gol no marcador o ABC administrava a partida e tentava explorar o contra ataque.

No intervalo do jogo uma garotinha de cerca de 9 anos me perguntou “de quanto vai ser o jogo” falei confiante “2 X 0 tá bom”, ela sorriu e me dizer que queria 5 X 0 que era para lembrar os cinqüentas títulos do ABC.

Vendo e ouvindo a confiança de todos passei a acreditar que finalmente poderíamos comemorar um título sem sofrer muito e sem o tradicional e torturante sofrimento de costume.

Ainda no início do segundo tempo o melhor jogador do campeonato estadual, Waldir Papel, de costas e lançando a bola sobre o próprio corpo e o de seu marcador, deu um belo passe para Alysson que lançou Vinícius que com categoria e frieza marcou o segundo do ABC.

A essa altura meu coração estava tranqüilo e eu não parava de repetir para todos que finalmente teríamos uma final sem muito sofrimento, ledo encano.

O ABC caiu de produção e o Potiguar de Mossoró marcou o seu primeiro gol aos 9min. Fiquei preocupado e pensei que esse qüinquagésimo título estadual, assim como todos os demais, não seria fácil. Lembrei que penamos na segunda fase do estadual depois de uma brilhante primeira fase e que o ABC e seus atletas precisaram se superar para chegar a essa final e precisaríamos continuar lutando até o último minuto para superar o nosso próprio recorde de títulos.

A equipe de Mossoró continuou no ataque e aos 31min conseguiu o gol de empate. Nas arquibancadas a Frasqueira ficou assustada por alguns instantes e foi possível ouvir a pequena, mas simpática, torcida do Potiguar gritar mais alto que a Frasqueira. Mas foi por pouco tempo, logo a Frasqueira reagiu e voltou a mostrar que o Frasqueirão tem dono.

Daí em diante o jogo ficou dramático e a tranqüilidade inicial se transformou em tensão, especialmente quando o Potiguar vem um gol, felizmente irregular e devidamente anulado pelo arbitro da partida.

A equipe do Potiguar demonstrou garra e qualidade, mas esse título era nosso, fizemos por merecer quando conquistamos a melhor campanha do campeonato.

Com o apito final a Frasqueira promoveu um dilúvio de alegria. Era tanta alegria pelo conquista do título número 50 que ninguém se embotou com a chuva que insistia em cair. A festa entrou pela noite e foi muito boa, afinal não é todo dia que se ganhar o qüinquagésimo título.

Mas de todas as cenas da comemoração não vou esquecer de duas delas: a primeira foi os aplausos da Frasqueira para o time do Potiguar quando esse recebeu o troféu de vice-campeão, reconhecendo a luta e empenho do “Time Macho”. A outra cena foi o nosso veloz atacante Ivan, símbolo de amor ao ABC, que permaneceu o jogo inteiro no banco de reservas, e ao receber o troféu de campeão durante a volta olímpica pegou o troféu e correu em disparada deixando todos para trás, assim como vez com os adversários na conquista de seus quatro títulos estaduais pelo Mais Querido.


Assim a Frasqueira, apesar das justas críticas, saúda todos que fazem o ABC através da figura do Professor Ferdinando Teixeira por mais essa vitória.

Com esse título o ABC superou a si mesmo, bateu seu próprio recorde e abriu definitivamente o caminho para se tornar uma potência do futebol nordestino e futuramente brasileiro. Com essa conquista o ABC aprendeu definitivamente que unido com a Frasqueira pode voar alto.

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