Esse momento de festa e alegria de toda a nação alvinegra pela passagem de mais um ano de fundação do ABC Futebol Clube me fez pensar em algo estranho: “e se o ABC não existisse?”, “e se o mais belo de todos os clubes do planeta terra não tivesse sido fundado?”.
De repente fui tomado por uma estranha tristeza e por um medo sem sentido; pelo medo de perde o ABC, pelo medo de não tê-lo mais por perto e entre nós. Consegui imaginar o mundo e a vida sem futebol e acho que todos nós poderíamos ser perfeitamente felizes sem ele, haveria outros esportes coletivos, esportes praticados com bola. Mas se não existisse bola alguma? Se todos os esportes fossem praticados sem bola? Como seria o mundo sem ela, a bola, que une pessoas e nações sobre um mesmo idioma esférico? Depois de uma reflexão concluir que poderíamos viver felizes em um mundo sem bola. Então me fiz a seguinte perguntar: “poderíamos viver sem o ABC?” E rapidamente me veio à cabeça imagens, como cenas de um filme, de minhas idas aos treinos do ABC, levado por meu pai. Momentos de alegria que vivi ao lado dele, que apenas me guiava pela mão sem dizer onde iríamos (e nem precisava), sem falar uma só palavra assistia em silêncio todo o trabalho de preparação da equipe; ao termino do treino se levantava e simplesmente me estendia a mão e me guiava de volta para casa. Tempos depois entendi o motivo de só irmos aos treinos e nunca aos jogos: não tínhamos dinheiro algum para pagar os ingressos. Lembrei da primeira camisa oficial que ganhei do ABC e do esforço que meu pai fez para me dá tão valioso presente. Lembrei dos times de botão decorados com as cores alvinegras feitos, por mim mesmo, com caixas de fósforo ou quando, com sorte, com sobras de acrílico de janela de trem, encontrado no lixo da estação ferroviária do bairro da Ribeira. Sentir saudade das camisetas brancas (geralmente originárias de campanhas eleitorais) que pintávamos à mão com as letras “ABC” para jogar peladas nos campinhos de terra, com elas nos sentíamos poderosos e vencedores, verdadeiros profissionais com seus uniformes em uma pelada de bairro. Lembrei que ainda guardo recortes velhos de jornais e álbuns de figurinha com fotografias e posters das vitórias do Mais Querido. Lembrei que nunca ganhei uma bola de verdade de presente, nem mesmo uma bola de borracha Canarinho, mas que minha mãe me fez com dedicação e amor as mais belas bolas de meia que já conheci, com as quais jogava, muitas vezes sozinho, batendo a bola contra uma parede e imaginando ser Curió, Dede de Dora, Djalminha, Reinaldo, Quinho, Tião, Odilon, Zinho e tantos outros que a memória não permite citar. Revivi o desejo frustrado de ser jogador de futebol profissional e entrar em campo, pelo menos uma vez, com a Frasqueira gritando meu nome entre os jogadores escalados para sair jogando. Lembrei do sonho, ainda não realizado, de ver o ABC campeão do mundo no Japão. Senti novamente as pernas cansadas, como se estivesse em pé tentado, da geral, ver o ABC jogar. Senti em meus cabelos mais uma vez a mão de Ruy Barbosa me cumprimentando quando era garoto. Perguntei-me por onde anda Isabel, namoradinha que conheci nos jogos do ABC. Alegrei-me por ter conhecido muitas cidades em minha peregrinação atrás do Mais Querido. Fui tomado de saudade dos amigos que fiz na Frasqueira. Lembrei dos títulos, especialmente do tri em 99, conquista que mais me marcou até a de 2007 (cinco muito!), dos mais belos gols, da vibração única da Frasqueira e das maiores derrotas, como não lembrar? Chorei novamente lembrando da vaga na primeira divisão que nos garfaram diante do Paysandu, da derrota injusta na final de 96 e do rebaixamento para a Série C do Brasileiro. Chorei de novo com a frustração de ver o ABC fora de série em 2006.
Depois de revive esses sentimos, percebi que talvez seja até possível a vida sem o ABC, mas tenho uma certeza: sem o ABC não há vida feliz e completa! Sem o espetáculo das armaduras alvinegras inoxidáveis que vestem os corpos dos atletas do Mais Querido a vida fica vazia e tediosa. Sem o meu ABC sou órfão de mim mesmo, vazio de paixões, carente de alegrias.
Não sou um dos torcedores mais apaixonados do ABC e posso dizer, que sem ele deixo de respirar porque é ele o meu ar, é ele que dá razão de ser as coisas.
Digo isso, porque vejo diariamente provas de amor que só a Frasqueira proporciona a um clube de futebol ou de qualquer esporte; homens e mulheres que usam seus últimos trocados para comprar um ingresso para os jogos, muitas vezes deixando de pagar uma conta ou de presentear os filhos com um brinquedo. Vejo diariamente, homens e mulheres, que abrem mão do convívio social com suas famílias para assistir o ABC. Vejo diariamente, homens e mulheres, jovens e adultos, dedicarem mais tempo ao ABC do que a eles próprios. Vejo diariamente demonstrações de amor incondicional ao ABC, seja no futebol ou em qualquer esporte, seja em um jogo com uma seleção como a da União Soviética, ou em uma partida singela de uma equipe das divisões de base do ABC.
A Frasqueira é a torcida mais apaixonada do mundo, ela ama tão somente o ABC porque ele é o ABC, na vitória ou na derrota, um amor gratuito, desinteressado. A Frasqueira não troca o ABC por nenhum time do mundo, nem por uma carrada de times campeões mundiais, porque a Frasqueira não ama o ABC pelos seus títulos e conquistas, ou pela divisão em que se encontra no futebol, ela ama o ABC porque o ABC é o melhor e esse amor é retribuído. Muitos poderão dizer que isso já deixou de ser amor e passou a ser fanatismo, chame como quiser, o fato é que só quem é abcedista sabe como é bom torcer pelo ABC.
Desejo um feliz aniversário ao Mais Querido. Como presente lhe ofereço meu amor e em retribuição lhe peço apenas que continue existindo, que continue sendo o mesmo ABC de sempre.
Meu ABC a vida sem você seria, não apenas incompleta, mas muito mais triste.
PARABÉNS MAIS QUERIDO!!!



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