quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Lágrimas e Esperança

Já era tarde, muito tarde da noite e continuava a repetir para todos (e para mim mesmo) que estava tranqüilo e confiante na vitória do Mais Querido e na combinação de resultados que nos colocaria na Série B do Campeonato Brasileiro de Futebol em 2008, quando encontrei um amigo de longas datas, um abcdista apaixonado daqueles que não desistem nunca.

Ele se aproximou de mim com os braços abertos e chorando copiosamente me abraçou como uma criança que pede colo. Esperava de mim uma palavra de conforto e esperança, mas não sabia ele que também precisava encontrar alguém que acreditasse que não iríamos morrer na praia.

- Perdemos de novo fora de casa. 2 X 0 para um time ruim como o Atlético de Goiás, isso é uma tragédia. Falou chorando quando percebi que ele tinha bebido um pouco a mais da conta.

Para animá-lo disse sorrindo que “é mais gostoso quando é difícil”. Ele me segurou pelos ombros com seus mais de 1,80m de altura e olhou para mim de cima para baixo, sem dizer nada, com um olhar de censura que me deixou tão constrangido que baixei a cabeça por alguns longos segundos. Tiver que pensar em algo a dizer.

- Nós não temos o direito de ficar choramingando, hoje é um dos dias mais tristes da história do futebol brasileiro. Sete pessoas morreram e mais de setenta ficaram feridas em um acidente na Fonte Nova em Salvador, justamente no dia do acesso do Bahia a Série B e você me vem dizer que uma simples derrota do ABC é uma tragédia! Falei para ele com a voz firme.

Ele soltou meus ombros e calmamente disse que eu tinha razão, que devemos saber separar a festa e a magia do futebol da vida real, que devemos entender que futebol é só um esporte e que campeonato brasileiro tem todo ano, já a vida das pessoas...

Conversamos um pouco sobre a tragédia da Fonte Nova, sobre o empate do Bahia diante do Vila Nova que prejudicou o ABC e sobre nossas chances de acesso.

Aos nos despedimos marcamos nosso próximo encontro para o Frasqueirão no jogo decisivo contra o Bragantino. De longe ele gritava, enquanto andava de costas, “pode ganhar, pode perder sou ABC até morrer”.

Em casa, deitado na cama, com a cabeça embaixo do travesseiro chorei silenciosamente e fui tomado de vergonha pelo egoísmo de meus sentimentos e pela insensibilidade de minhas lágrimas, que não eram derramadas pelas vítimas da tragédia da Fonte Nova. Embora minha razão me levasse a Salvador, a pensar na crise do futebol brasileiro e nas centenas de vítimas da violência entre supostos “torcedores” e da falta de segurança e estrutura dos estádios, meu coração doía pelo ABC.

Cansado e com o rosto molhado pelas lágrimas, dormir na certeza que acordaria com as esperanças renovadas e com a convicção que nosso papel de torcedor não deve se resumir a acreditar sempre e a torcer, devemos ser mais ativos nos temas que dizem respeito a segurança e estrutura no futebol.

Ainda não acordei, mas ao acordar irei vestir minha armadura alvinegra inoxidável e levantar a cabeça com orgulho de torcer pelo ABC e cheio de esperança vou acreditar até o fim.

ABC eu te amo pelo que és e não pela divisão de que participar!

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