quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Tem que respeitar!

Apesar de estar bem de saúde, ser amado por uma linda garota e não ter maiores problemas financeiros (salva pelo SPC e SERASA, que nesse caso o problema não é meu, mas dos credores, aja visto que não posso pagar minhas dívidas), as últimas semanas tinham sido muito difíceis, faltava alguma coisa e eu sabia exatamente o que era.

O Mais Querido não estava bem, e como não poderia ser diferente eu também não estava bem, faltava a alegria do futebol, a alegria que só a frasqueira tem.

O nosso ABC não conseguia bons resultados no campeonato estadual, a equipe estava com o moral baixo, em cinco jogos apenas uma vitória e sobre um dos lanternas do campeonato.

O Mais Querido era humilhado pelo arqui-rival com piadinhas e chacotas constantes e desrespeitosas, sem nenhum senso desportivo.

Chegou o domingo de clássico rei, o ABC em farrapos estava prestem a enfrentar o seu principal rival: o América (ahg!), o “todo poderoso” América Futebol Clube, um dos líderes na tabela do campeonato estadual, em uma batalha de Davi versos Golias.

Ao chegar no Machadão, percebi que a torcida do ABC era menor que a do América, mas acreditava que isso não continuaria até o inicio do jogo, a frasqueira não iria me decepcionar. Mas o tempo ia passando e nossa torcida não aumentava substancialmente, parei de olhar e me concentrei no gramado, minutos depois ouvir pelo rádio “que era visível que a torcida do ABC era maior que a do América”, foi quando olhei para o lado e vir a polícia ampliando a área reservada para o Mais Querido. Nossa! Pulei de alegria e orgulho da frasqueira que era absoluta maioria no estádio e que continuava apoiado o time mesmo nesse momento de crise.

Quando o time de vermelho entrou em campo quase fiquei surdo com o foguetório, mas pensei comigo mesmo que barulho não ganhar jogo. O América entrou em campo vitorioso, tive a impressão que das arquibancadas os jogadores americanos, assim como seus torcedores, já contavam vitória e faltava apenas cumprir a formalidade dos 90 minutos.

Com o início do jogo, as palavras de ordem cantadas pela torcida americana continuavam a desrespeitar a tradição do Mais Querido.

Parecia que o tabu de quase dois anos sem vitória americana sobre o ABC estava com os minutos contados, o América partiu para cima de nós como um rolo compressor.

Mas o que eles não sabia é que é nessas horas que o Mais Querido fica mais forte e que a força do ABC, vem das arquibancadas e da alma dos seus jogados.

Foi quando aos 12 minutos de jogo, Cláudio mata uma bola no peito e lança Ivan (O Terrível) que mete por baixo das pernas do goleiro para aplica o primeiro golpe no gigante que cambaleou, cambaleou, mas não caiu voltando atacar com mais fúria ainda.

Enfurecido o dragão gigante cuspia jogo pelas ventas, quando aos 43 minutos da primeira etapa Carioca realiza um lindo lançamento para Ivan (O Matador de Dragões), que se livra da marcação e dribla o goleiro para aplicar um golpe que feriu de morte o dragão.

Agonizante o dragão ainda tentou alguns golpes, mas esbarrou em Adriano (Paredão), uma Muralha da China, capaz defender qualquer chute.

Nas arquibancadas vermelhas o que se via era rostos avermelhados de vergonha e uma procissão silenciosa em direção aos portões de saída que em nada lembrava o barulho de antes da partida.

Os que foram para casa mais cedo não viram o matador de dragões, Ivan, meter uma na trave e o golpe de misericórdia dado por Beto que chutou forte, em cobrança de falta, marcando o terceiro gol do alvinegro.

Oficialmente o placar foi 3X0, mas isso só para quem não entende de futebol, porque para a nação alvinegra o placar foi 5X0, se não vejamos: três gols oficiais somados com o grito de “Olé”, acrescido do belo toque de calcanhar de Ivan no final do jogo, igual 5X0.

Foi um jogo verdadeiramente emocionante, mas a cena que mais me emocionou foi ver um torcedor, conhecido apenas por Neto, gritando a plenos pulmões, enquanto chorava e mostrava a sua armadura alvinegra inoxidável, a frase “TEM QUE RESPEITAR!”.

Nessa segunda-feira ao acordar, como quem acorda de um lindo e doce sonho, não conseguir tirar o sorriso dos lábios, ainda estava vestido com minha armadura alvinegra inoxidável (a prova de dragões e gatinhos), fiz questão de dormir com ela para continuar lembrando do espetáculo de domingo e da frase de Neto.

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